Olá, sejam bem-vindas e bem-vindos!
Você já se sentiu deslocado em um ambiente novo, como se precisasse reaprender a se relacionar com o mundo ao seu redor? Esse sentimento pode surgir ao mudar de país, de cidade ou até mesmo ao conviver com pessoas que têm histórias e costumes diferentes dos seus. Nessas situações, nos deparamos com perguntas fundamentais: Quem sou eu aqui? Como me reconheço nesse novo contexto?
A Psicologia Intercultural busca compreender como nossas vivências culturais moldam nossa forma de ser, sentir e nos relacionar. Mais do que estudar diferenças entre culturas, ela investiga o impacto desses encontros em nossa identidade e no modo como nos situamos no mundo. Afinal, cultura não é apenas um pano de fundo da nossa existência – ela influencia nossas referências, nossos valores e até mesmo a maneira como nos expressamos.
O que significa estar bem para você? Dependendo da cultura, essa resposta pode mudar bastante. Em alguns lugares, buscar terapia é visto como um ato de autocuidado; em outros, ainda é um tabu. Algumas sociedades valorizam a independência individual na tomada de decisões sobre a saúde, enquanto outras enfatizam o apoio da família e da comunidade.
Para quem migra, esse encontro de perspectivas pode ser um grande desafio. A adaptação envolve mais do que aprender um novo idioma ou compreender costumes locais – trata-se de reconstruir sentidos. Quem já viveu fora do seu país sabe que esse processo pode gerar ansiedade, isolamento ou um sentimento de não pertencimento. Mas esse impacto não acontece apenas com quem migra. Filhos e netos de imigrantes também vivem esse trânsito cultural diariamente, assim como quem retorna ao seu país de origem após anos no exterior e percebe que não se encaixa mais ali.
Quando falamos de interculturalidade, você pensa logo em migração internacional? Essa é uma ideia comum, mas a verdade é que o Brasil, por si só, é um país de encontros e desencontros culturais. Nossa história foi construída por povos indígenas, africanos, europeus, asiáticos e muitos outros que continuam moldando nossa cultura.
Se você já conversou com alguém de outro estado, deve ter percebido que até dentro do Brasil as diferenças culturais são enormes! Nordestinos e sulistas, por exemplo, muitas vezes precisam explicar suas expressões, costumes e até pratos típicos uns aos outros. O país é vasto e diverso, e essa multiplicidade nem sempre se traduz em harmonia. Estudos mostram que o contato entre culturas pode gerar tanto aprendizados enriquecedores quanto conflitos.
E isso não vale apenas para grandes diferenças regionais. Já se viu em uma situação em que precisou explicar uma gíria para alguém? Ou já sentiu que seu jeito de agir foi mal interpretado por alguém de outro contexto? Esses pequenos encontros culturais fazem parte do nosso dia a dia e mostram como nossa identidade é influenciada pelo meio em que crescemos.
Nossa identidade não é fixa – ela se constroi no contato com os outros e com o ambiente ao nosso redor. Já teve a sensação de não se reconhecer depois de uma experiência marcante? Quando mudamos de contexto, seja por uma mudança de país, cidade ou ao conhecer novas perspectivas, começamos a questionar aquilo que antes parecia natural ou familiar.
Para quem migra, essa sensação pode ser ainda mais intensa. O tempo de residência e a localização no novo país influenciam diretamente a construção da identidade e do pertencimento. Chegar a um lugar desconhecido pode trazer um misto de descobertas e inseguranças. Há momentos em que o outro funciona como um espelho, refletindo nossas raízes e reforçando quem somos. Em outros, esse mesmo olhar nos estranha, nos desloca, nos desafia a entender como queremos nos apresentar ao mundo.
Diante disso, surge uma pergunta essencial: como equilibrar a vontade de pertencer sem perder aquilo que nos define? Como encontrar um espaço para nossa identidade em meio a tantas novas referências? Essas são questões que fazem parte da experiência intercultural – e que, no fundo, dizem respeito a todos nós.
No EUTRE, olhamos para essas experiências sem patologizar a diferença. Em vez de enquadrar a adaptação cultural como um problema, buscamos entender suas nuances com sensibilidade e criticidade. O encontro entre culturas pode ser desafiador, mas também é uma oportunidade de transformação – ampliando horizontes, fortalecendo identidades e criando novos jeitos de habitar o mundo.
Além disso, não podemos falar de interculturalidade sem considerar as condições concretas da vida. A vulnerabilidade psíquica associada ao processo migratório não está isolada de fatores como moradia, trabalho, acesso à saúde e garantia de direitos. Para que a escuta psicológica possa ser um espaço de elaboração e ressignificação, é essencial que as necessidades básicas estejam minimamente asseguradas. É por isso que a atuação em rede, em parceria com outras iniciativas e organizações, é um eixo fundamental da Clínica Intercultural.
Afinal, sentir-se pertencente não significa abrir mão de quem se é, mas encontrar caminhos para existir com autenticidade no encontro com o outro. No EUTRE, acreditamos que cada história de vida carrega um repertório cultural único – e é justamente nesse atravessamento entre diferentes vivências que novas possibilidades se abrem.
E você, já se sentiu "fora do lugar"? O que ajudou a ressignificar essa experiência? Conta pra gente ou compartilha com alguém que pode se identificar com essa reflexão. Queremos seguir essa conversa com você!
Dicas
Se você está aqui, é porque a migração, de alguma forma, toca sua vida.